Usabilidade aplicada a uma estação digital de processamento de imagens

Janeiro, 2006

Jorge Marmion


Os conceitos de usabilidade aplicam-se à aplicação como um todo: tanto a localização de informações na tela (ou no dispositivo visual utilizado), quanto aos mecanismos que possibilitam a comunicação do usuário com a aplicação. Recentemente tivemos uma experiência que gostaríamos de compartilhá-la com os colegas que acessam nosso site. As fotos são sofríveis, mas acredito que permitam compartilhar nossa vivência.

O equipamento

Já é possível encontrar com certa facilidade estações digitais nas quais o próprio usuário pode solicitar cópias de suas fotos, desde que armazenadas digitalmente em algum meio compatível. É possível também efetuar certas correções (ex: corte) nas fotos cujas cópias deseja-se obter.

Vimos em um hipermercado em São Paulo uma dessas estações e, entusiasmados com a novidade, fomos experimentá-la.

A estação é composta de uma tela, abaixo da qual parece haver dois alto-falantes, um teclado, no qual há também um mecanismo de apontamento ("mouse"), e uma série de entradas para o meio magnético no qual encontram-se gravadas as fotos (não mostradas na foto). A altura do conjunto é de aproximadamente 1,60m, permitindo que uma pessoa de estatura média opere a máquina com razoável facilidade: a tela fica na altura dos olhos, e pode-ser digitar no teclado com razoável facilidade.

Sua localização não poderia ser pior escolhida: os tubos de iluminação refletem na tela, tornando difícil às vezes ler o que está escrito ou observar detalhes das fotos.

A aplicação

A tela inicial oferece duas opções de idiomas (inglês e português) e, adequadamente, o idioma Português é a opção corrente. Há três opções de mídia, em resposta á pergunta "Qual é o seu original?": cartão, CD e Disquete. Cada opção é apresentada através de um botão de dimensões consideráveis, junto a um ícone representativo. Até aí, uma maravilha.

"Eis uma aplicação correta de uma tela touch screen", pensei, enquanto aproximava meu dado ao botão cartão. Toco no botão, e nada acontece. Toco novamente, e mais uma vez nada acontece. Toco no ícone. Nada. Toco freneticamente em diversos locais da tela. Nada. "Não é possível !", penso. Pergunto educadamente para a mocinha que atende no balcão: "Como é que seleciono a opção que eu quero?". "Com o mouse", responde. A resposta foi um balde de água fria nas minhas expectativas. A sensibilidade do mouse não era uma maravilha, mas o tamanho dos botões torna a tarefa de posicionar o ponteiro bastante fácil ("talvez o projetista tenha ouvido falar da Lei de Fitts", pensei).

Ao clicar "Cartão" aparece uma mensagem no topo da tela -nota 10 para o projetista neste item- que diz: "introduza as informações pessoais utilizando o teclado". Perfeito. Começo a teclar, no teclado, meu nome. Nada. Repito a operação. Nada. Tento -apesar de estar convencido que não ia funcionar- escrever meu nome tocando nas teclas na tela. Nada. "Não é possível que seja o que estou imaginando", peso. Era, sim. Teve de digitar meu nome e meu telefone clicando em cada uma das telas no teclado da tela. "Não, o projetista jamais ouvir falar da Lei de Fitts", pensei enquanto teclava.

Para não estender demais o artigo e cansar o(a) leitor(a), passei com certa facilidade nas demais telas e consegui, finalmente, finalizar meu pedido. Após ler uma mensagem informando que meu pedido tinha sido aceito e que o processamento acabara, fui embora. Retornei uma hora depois para pegar minhas fotos. "Cadê o canhoto?", perguntou a funcionária do balcão. "Não tenho, porque pedi as cópias na máquina", respondi. "Mas o senhor teria de ter pedido um canhoto aqui no balcão após finalizar seu pedido", me informou a funcionária. "Olha, a máquina disse que estava tudo terminado, então fui embora", expliquei. Graças a boa vontade da funcionária meu pedido foi finalmente localizado e obtive as cópias solicitadas.

Lições

Esta é uma situação típica onde a usabilidade faz toda a diferença: o usuário não tem condições de ser previamente treinado, provavelmente não tenha experiência anterior na aplicação mas há uma alta probabilidade que já tenha tido contato com um computador (nem que seja através de um terminal bancário; afinal, estamos no século XXI). O resultado de um pequeno conjunto de decisões incorretas na implementação tem um resultado imediato: a fila para utilização da máquina, em determinados horários, torna-se bastante grande, e o nível de desistências, devido à demora na rotatividade, também. Nada pior que estar em uma fila e o atendimento ao primeiro da fila não acaba nunca.

O dispositivo de comunicação (tela, por exemplo), se não tiver um sistema anti-reflexo, deve estar corretamente posicionado, evitando reflexos que podem prejudicar a leitura dos textos apresentados.

Não construa aplicações que pareçam "touch screen" se o dispositivo de diálogo não suporta esta função. Com a popularização desse tipo de aplicação, especialmente em caixas bancários eletrônicos, o usuário que pela primeira vez use o equipamento vai direto na tela. Fiquei muito tempo observando, e voltei em diversas ocasiões, e invariavelmente constatei que se o usuário chegasse e não houvesse ninguém na sua frente (que possa ter visto operando a aplicação) ia direto no touch screen.

A opção do teclado virtual é extremamente demorada para textos longos, e só é aceitável em certas circunstâncias (ex: digitação de senhas em computadores públicos). Nesta aplicação, chegamos à conclusão que digitar um nome de treze caracteres e o telefone (dados pedidos pela aplicação) através do teclado virtual demorava-se 14 vezes mais que digitando-o no teclado real. Impacto imediato na fila.

Se você emite uma mensagem informando a finalização do procedimento, certifique-se que não é necessária nenhuma ação adicional mesmo que fora do contexto. Neste caso, a mensagem informando que o pedido estava pronto deveria ter sido complementada com uma outra mensagem do tipo: "Dirija-se ao balcão de atendimento e solicite seu protocolo.". Melhor ainda, tivesse sido que a máquina emitisse um recibo pela porta de impressão que existe no painel frontal, mas a essa altura já estava convencido que a maioria das opções da estação ou não tinham utilidade nenhuma ou tinham sido totalmente sub-aproveitadas pelo projetista.


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